
A região do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, está reescrevendo sua história no cenário agrícola brasileiro. Após um período de declínio que se estendeu por mais de duas décadas, o cultivo de chá, que um dia fez de Registro a "capital nacional" do produto, volta a florescer impulsionado pela paixão de produtores locais e por um movimento de resgate cultural e econômico.
O ponto alto dessa retomada é a celebração de 10 anos da Rota do Chá, um evento que, anualmente, apoia e valoriza os produtores que estão investindo na qualidade e na sustentabilidade no Vale do Ribeira.
O cultivo de chá no Vale do Ribeira foi iniciado por famílias de imigrantes japoneses a partir da década de 1920, atingindo seu auge nos anos 1980, quando a produção superou 11 mil toneladas anuais e abrigava mais de 40 fábricas. No entanto, a implantação do Plano Real em 1994, que desvalorizou o produto de exportação, somada à falência da Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), causou o fechamento de grandes indústrias e o abandono das plantações.
Três décadas depois, produtores como Miriam Yamamaru, do Sítio Yamamaru, em Registro, decidiram honrar a tradição familiar.
O Retorno: O Sítio Yamamaru, que havia permanecido abandonado por 25 anos, retomou a produção de chá em 2017.
Inovação Sustentável: Miriam, ao lado do irmão Kazutoshi, adota o Sistema Agroflorestal (SAF), consorciando o Camellia sinensis (chá-da-índia) com o palmito juçara, espécie nativa da Mata Atlântica. O juçara oferece o sombreamento natural necessário, contribuindo para a sustentabilidade da plantação.
Reconhecimento: O esforço e a técnica artesanal já são reconhecidos nacionalmente. A produtora coleciona duas medalhas de ouro consecutivas no Concurso Brasileiro de Chá Preto Artesanal.
O cultivo artesanal no sítio, em cerca de três hectares, resulta em uma produção anual de 50 a 60 quilos de chá premium, que se destaca pela alta concentração de L-teanina, substância valorizada em chás finos que confere sabor diferenciado e propriedades relaxantes.
Miriam Yamamaru é um exemplo de persistência e curiosidade. Em 2017, ela realizou um intercâmbio cultural na região de Kagoshima, a segunda maior produtora de chá do Japão, onde aprendeu técnicas avançadas de processamento artesanal de chá verde.
Ao retornar ao Vale do Ribeira, ela aplicou o conhecimento adquirido. O processamento artesanal envolve etapas cruciais, que definem o tipo de chá (verde, preto, oolong):
Murcha: As folhas são distribuídas para perderem a umidade.
Amassamento: As folhas são amassadas para liberar enzimas e óleos essenciais.
Fermentação (Oxidação): As folhas repousam em ambiente fresco e úmido, definindo o tipo de chá (o chá preto é totalmente oxidado).
Recentemente, para melhorar a eficiência sem perder a essência artesanal, foi instalada uma pequena fábrica no sítio. "Antes, fazíamos tudo na mão e conseguíamos no máximo 5 quilos por dia. Agora chegamos a 15 quilos de folhas em natura”, conta Miriam.
A Rota do Chá, criada em 2015 por Yuri Hayashi (Escola de Chá de São Paulo) e Renata Acácia Gomes (consultora), surgiu com o objetivo de valorizar os produtores locais e difundir a história do chá brasileiro.
O evento anual, realizado em Registro (SP), atrai especialistas e entusiastas para uma imersão de quatro dias em sítios produtores, como o Sítio Yamamuru, o Sítio Shimada e a Amaya Chás.
Experiência Completa: Os visitantes têm a oportunidade de colher, processar e degustar o chá diretamente das folhas, vivenciando o processo artesanal.
Movimento Coletivo: A Rota simboliza um resgate econômico, social e cultural. Renata Acácia Gomes destaca: “O chá brasileiro é fruto da nossa diversidade, da força das mulheres do campo e da relação entre tradição e inovação.”
Apoio e Fomento: O projeto conta com o apoio de instituições como Senar, Sebrae, Sesc e Senac, que fomentam capacitações e parcerias, estimulando novos negócios sustentáveis no Vale do Ribeira.
Outras famílias tradicionais, como a Família Amaya (80 anos de atuação e produção de 90 toneladas anuais) e a Família Shimada (com chás orgânicos certificados e o exclusivo 'chá dourado'), também integram o movimento, reforçando a intenção coletiva de recuperar a tradição de cultivo de chá no Vale do Ribeira.
Com a persistência e a inovação dos produtores, o Vale do Ribeira volta a ocupar seu lugar de direito no mapa do chá mundial, transformando tradição em produtos premium e sustentáveis.