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Mudanças na linha costeira impactam construções e vida local em Iguape, no Vale do Ribeira

Erosão costeira já levou mais de 150 construções na Praia do Leste e redesenha a paisagem do litoral sul paulista

Fagner Vieira
Por: Fagner Vieira Fonte: Gazeta de SP
16/08/2025 às 14h59
Mudanças na linha costeira impactam construções e vida local em Iguape, no Vale do Ribeira
Mudanças na linha costeira impactam construções e vida local em Iguape, no Vale do Ribeira

No extremo sul do Litoral de SP, mais precisamente na histórica cidade de Iguape, localizada no Vale do Ribeira, um fenômeno natural silencioso, mas devastador, vem alterando drasticamente o cotidiano e a paisagem da região. O avanço contínuo do mar sobre a faixa litorânea da Praia do Leste já obrigou dezenas de famílias a abandonarem suas casas, enquanto outras resistem com coragem e apego ao território que escolheram para viver. Mais do que uma questão ambiental, trata-se de uma luta diária pela permanência, identidade e sobrevivência.

De acordo com imagens de satélite obtidas através do Google Earth, o mar avançou aproximadamente um quilômetro entre os anos de 2001 e 2024, impactando diretamente o traçado da costa no litoral sul paulista. Esse processo, causado principalmente pela erosão marinha, tem sido responsável pela destruição de mais de 150 edificações, incluindo casas, comércios, ruas e quiosques que antes compunham o cenário urbano e turístico da localidade.

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Litoral de SP sofre com avanço do mar: realidade em constante transformação

A erosão costeira na região do Litoral de SP e Vale do Ribeira não é um episódio isolado ou pontual. Trata-se de um processo contínuo, com impactos profundos não apenas sobre a infraestrutura urbana, mas também sobre o psicológico e o modo de vida das comunidades atingidas. O que antes era uma região acolhedora, procurada por turistas e pescadores, tornou-se cenário de incerteza, onde o mar, antes fonte de sustento e lazer, passou a ser visto como ameaça iminente.

Na Praia do Leste, o recuo da faixa de areia e o avanço das águas salgadas mudaram radicalmente a configuração do território. Moradores relatam que, ao longo de duas décadas, construções inteiras desapareceram da noite para o dia. Em meio a esse cenário de instabilidade, histórias de resistência humana ganham ainda mais força e visibilidade.

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Resiliência em meio às ondas: a história de Jesusles Fernandes

Entre os exemplos mais marcantes de resistência está Jesusles Fernandes, conhecida por todos como , uma mulher de 50 anos que se recusa a deixar o lugar onde construiu sua vida. Natural de Minas Gerais, Jô chegou a Iguape em 1999 e, desde então, fez da Praia do Leste seu lar e seu sustento. Em 2003, adquiriu seu primeiro quiosque à beira-mar, começando uma trajetória empreendedora marcada por esforço, perdas e recomeços.

A comerciante viu, com os próprios olhos, o mar destruir tudo o que construiu — mais de uma vez. Ainda assim, Jô permanece firme, morando atualmente a cerca de 50 metros do novo barranco formado pela erosão. Consciente dos riscos, ela afirma com honestidade e emoção: “Quem está errada sou eu, que comprei as casas”, disse. Mesmo assim, a paixão pelo lugar continua sendo mais forte do que o medo.

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Só vou embora em último caso. Eu amo ficar aqui. Amo essa emoção que o mar causa”, afirma com convicção. A força de suas palavras ecoa na vizinhança e inspira outros que também se recusam a abandonar o território. Para muitos, não se trata apenas de resistir à força da natureza, mas de manter viva a história, as raízes e a cultura local, tão características da região do Vale do Ribeira.

Recordações de uma ressaca inesquecível

Entre as lembranças mais vívidas de Jesusles está uma ressaca devastadora ocorrida em julho de 2009. Foram quatro dias de destruição ininterrupta, com ondas fortes que avançaram sobre a areia e engoliram de vez seu quiosque. A comerciante descreve a cena como um pesadelo real: “Eu não acreditava, mas eu vi caindo. Não tinha mais nada”. Mesmo diante de tamanho trauma, a fé no recomeço sempre falou mais alto.

Jô reconstruiu seu comércio, sua moradia e sua rotina. Ela não está sozinha. Outros moradores da Praia do Leste, mesmo diante da devastação contínua, também se agarram ao pouco que restou, movidos pelo sentimento de pertencimento ao território e pela ausência de alternativas seguras e viáveis para recomeçar a vida em outro local.

Vale do Ribeira em alerta: erosão costeira deve continuar

Especialistas alertam que a erosão no litoral sul de São Paulo deve seguir avançando. As mudanças climáticas, somadas à pressão humana sobre os ecossistemas costeiros, tendem a intensificar esse fenômeno, exigindo atenção e medidas urgentes por parte do poder público. Em regiões como Iguape, a ausência de barreiras naturais, como recifes e vegetação de restinga, facilita ainda mais a ação da maré.

Enquanto políticas públicas não são efetivamente implementadas, comunidades inteiras seguem expostas a riscos crescentes. No entanto, a resiliência das populações do Litoral de SP e do Vale do Ribeira se revela um dos elementos mais poderosos deste cenário de crise. Pessoas como Jesusles Fernandes transformam sua resistência em símbolo de força e amor pelo território.

Considerações finais

O avanço do mar sobre a Praia do Leste, em Iguape, no extremo sul do Litoral de SP, é mais do que um fenômeno geográfico: é uma narrativa de perdas, resiliência e laços profundos com a terra. Com mais de 150 construções destruídas, a erosão marinha segue implacável, transformando o cenário natural e social da região.

Apesar das dificuldades, moradores como Jô mostram que, mesmo diante da força bruta da natureza, é possível resistir com dignidade e afeto ao local que chamam de lar. Enquanto as águas seguem esculpindo uma nova geografia para o Vale do Ribeira, as histórias de quem permanece ajudam a manter viva a identidade de um povo acostumado a lutar – e a recomeçar quantas vezes for preciso.

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