Cotidiano Meio Ambiente
Lixo estrangeiro nas praias do litoral paulista e do Vale do Ribeira chama atenção: botijão de gás chinês está entre os itens encontrados
ONG identifica mais de 4,7 mil resíduos internacionais na região desde 2019; maior parte tem origem na China
05/08/2025 09h09 Atualizada há 12 meses
Por: Fagner Vieira Fonte: Metropoles
Lixo estrangeiro nas praias do litoral paulista e do Vale do Ribeira chama atenção: botijão de gás chinês está entre os itens encontrados / Foto: Divulgação

O aumento expressivo na quantidade de lixo internacional encontrado nas praias do litoral de São Paulo e do Vale do Ribeira tem chamado a atenção de ambientalistas, pesquisadores e do Ministério Público. Desde 2019, mais de 4.700 resíduos de origem estrangeira foram identificados pela ONG Ecologia em Movimento (Ecomov), que atua em ações de monitoramento ambiental e conservação marinha. Entre os itens recolhidos estão embalagens de temperos, produtos de limpeza, sabonetes, macarrão instantâneo e até um botijão de gás fabricado na China.

O levantamento realizado pela entidade aponta que 74,4% dos resíduos coletados têm origem chinesa, identificada por meio de rótulos, códigos de barras ou QR codes que não correspondem a produtos fabricados ou comercializados no Brasil. A presença desses materiais vem crescendo de forma acelerada. Em apenas cinco anos, foi registrado um aumento de 500% na quantidade de lixo internacional recolhido na costa paulista, evidenciando um problema ambiental de escala global que impacta diretamente a biodiversidade marinha e os ecossistemas da região.

Peruíbe concentra maior número de lixo estrangeiro e acende alerta ambiental

De acordo com a ONG, o município de Peruíbe, localizado no extremo sul da Baixada Santista e parte integrante da região do Vale do Ribeira, concentra a maior parte dos materiais identificados. A cidade, que está a cerca de 139 quilômetros da capital paulista, registrou sozinha 1.200 itens de origem estrangeira recolhidos apenas entre 2023 e 2024. Os resíduos foram encontrados inclusive em áreas de preservação ambiental, o que agrava ainda mais a situação.

No dia 12 de julho de 2024, durante uma ação de rotina da Ecomov, voluntários e especialistas localizaram uma nova leva de materiais estrangeiros, incluindo o inusitado botijão de gás chinês, considerado um dos achados mais curiosos até o momento. O presidente da ONG, Rodrigo Azambuja, explicou que muitos desses materiais ainda estavam dentro do prazo de validade e foram fabricados recentemente, o que descarta a possibilidade de que tenham chegado até a costa brasileira apenas por meio das correntes marítimas.

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Lixo tóxico ameaça fauna marinha e humanos

Além do impacto visual e da poluição nas praias, os resíduos encontrados levantam preocupações relacionadas à saúde pública e ao meio ambiente. Em algumas coletas recentes, os voluntários identificaram substâncias altamente tóxicas como o Gamazyme BTC, um composto químico corrosivo utilizado em produtos de limpeza industrial. Esse tipo de material oferece risco direto aos animais marinhos e pode causar lesões graves nos olhos e na pele de seres humanos, caso haja contato direto.

Diante da gravidade da situação, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) instaurou um inquérito civil para apurar a origem e o descarte irregular desses resíduos. O volume crescente e a frequência com que esses materiais são encontrados reforçam a necessidade de investigação e de responsabilização de possíveis agentes poluidores, sobretudo embarcações estrangeiras que trafegam pelo litoral.

Hipótese mais provável: descarte irregular por navios internacionais

Especialistas em oceanografia e poluição marinha têm analisado o caso com preocupação. Segundo o professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), a hipótese mais plausível é a de que o lixo esteja sendo lançado ao mar por navios estrangeiros, possivelmente de bandeira chinesa ou de outros países asiáticos, que utilizam o Porto de Santos como rota comercial.

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Turra explica que, ao invés de pagarem pelos serviços adequados de descarte no porto, alguns navios optam por despejar os resíduos diretamente no mar para reduzir custos operacionais. Com a influência das correntes oceânicas e das marés, esse lixo acaba chegando ao litoral paulista e em pontos do Vale do Ribeira, afetando não apenas o equilíbrio ambiental da região, mas também a qualidade de vida das comunidades litorâneas.

Vale do Ribeira no centro do debate ambiental

O surgimento contínuo de lixo estrangeiro nas praias do Vale do Ribeira coloca a região no centro do debate sobre sustentabilidade, soberania ambiental e preservação marinha. Com ecossistemas sensíveis e áreas de grande valor ecológico, como a Estação Ecológica Juréia-Itatins, a região vem sendo cada vez mais impactada por ações humanas que ocorrem fora de suas fronteiras, o que exige medidas urgentes, fiscalização internacional e colaboração entre governos para conter esse tipo de crime ambiental transnacional.

O trabalho de ONGs como a Ecomov tem sido fundamental para mapear o problema e pressionar por políticas públicas e acordos internacionais que coíbam o descarte ilegal de resíduos no oceano. O Vale do Ribeira, que abriga uma das maiores reservas de Mata Atlântica do Brasil, não pode continuar sendo o destino final de lixo produzido em outros continentes.





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