Existe, nos cultos de nação ou Candomblé, um culto fechado denominado culto à Egungun.
O culto Egungun não é revelado, tudo é secreto, muito sério, e as proibições, se quebradas, acarretam "quizilas" aos seus inconfidentes.
O culto à Egungun é restrito no Brasil à algumas sociedades antigas e que preservaram o que foi possível do culto que existia na África no tempo em que foram trazidos para cá os seus seguidores.
O culto à Egungun é um ritual mais elaborado do tradicional culto aos ancestrais, praticado por todos os povos em todos os tempos.
O culto aos ancestrais é tão universal que está até na Bíblia judaico-cristã, em que pessoas dotadas de dons mediúnicos são até hoje reverenciadas como "profetas", como grandes reis e como grandes líderes.
Na Roma antiga os deuses lares eram os protetores das famílias, que cultuavam seus antepassados e buscavam em seus membros de maior destaque, já falecidos, a inspiração para as mais variadas dificuldades.
Os orientais (chineses, japoneses etc.) cultuam seus ancestrais e têm ritos específicos para agradá-los, atraí-los e deles haurirem o amparo espiritual.
Enfim, não é algo exclusivo dos cultos à Egungun esse nosso apego aos "mortos".
O espiritismo kardecista está fundamentado no culto aos mortos, pois Jesus Cristo foi um homem que viveu na Terra há dois mil anos.
E os espíritos comunicantes já viveram na Terra.
O próprio Cristianismo é um culto aos mortos, pois seu fundamentador, Jesus Cristo, é um espírito. E o culto aos santos confirma nossas afirmações.
Egun significa espírito na língua Yorubá.
Egungun é o conjunto dos ancestrais, e o culto à Egungun é o culto aos espíritos.
Pois bem, a Umbanda também não foge à regra de ouro de todas as religiões: cultua Deus e venera seus antepassados ilustres, devotando-lhes respeito e uma reverência religiosa, pois sem a existência dos antepassados nós não existiríamos.
O culto aos antepassados é tão forte e tão poderoso que a presença deles na forma de heróis nacionais exaltam o patriotismo que sustenta os brios de uma nação.
Zumbi dos Palmares lutou contra a escravidão e a supremacia dos europeus, atraindo o apoio dos nativos brasileiros em sua luta pela liberdade.
Tiradentes nos remete ao exercício do livre-arbítrio, ao direito de os guiarmos!
Dom Pedro I nos trouxe a tão almejada independência.
A princesa Isabel sacramentou o anseio de milhões de brasileiros de verem livres da escravidão os africanos e seus descendentes.
O marechal Hermes da Fonseca sacramentou a República e concedeu a todos o direito de se apresentarem como pretendentes à cargos de direção ou políticos, quebrando a espinha dorsal do regime imperial, no qual todos os cargos eram vitalícios e a hierarquia era estática.
Lampião lutou contra o coronelismo nordestino.
Zé Pelintra foi um grande mestre do catimbó, juremeiro e rezador dos bons!
Enfim, os antepassados são importantes e são nossa memória!
Eis aí o corolário que justifica e fundamenta o arquétipo adotado para a linha dos Baianos da Umbanda: o culto aos antepassados ou à Egungun!
Só que, na Umbanda, os eguns se mostram como lhes foi determinado.
Uns são espíritos de índios, outros são espíritos de velhos benzedores negros que misturavam rezas à Jesus Cristo e aos santos com o culto às divindades africanas.
Quanto aos Baianos da Umbanda, o arquétipo é o do tradicional "pai e mãe de santo da Bahia", mas não só de lá, e sim, de todos os recantos do país.
Afinal, se a Umbanda, assim como o Espiritismo, o Candomblé e todas as outras religiões cultuam seus ancestrais ilustres em todos os campos das atividades humanas, então qual é o problema em se cultuar a figura alegre, curiosa, intrometida e extrovertida dos sacerdotes dos Orixás na Bahia de Todos os Santos?
O arquétipo dos Baianos da Umbanda foi criado justamente em cima daqueles que melhor sustentaram e popularizaram o culto aos Orixás no Brasil.
Esses espíritos já tinham intimidade com os Orixás, suas magias, suas rezas, suas quizilas, seus feitiços etc. Foram homenageados com uma linha de trabalho só para eles, por meio da qual podem auxiliar os encarnados dando continuidade ao que já faziam quando viveram na terra.
A Umbanda é, tal como o Espiritismo, um culto fundamentado no culto dos antepassados e é um culto mais elaborado e totalmente aberto.
Quais são os nomes dos espíritos que incorporam:
* Zé do Coco
* Maria Bonita
* Lampião
* Zé Pelintra
* Corisco
* Zé da Bahia, etc.
São nomes que, na Umbanda, englobam várias correntes espirituais formadas por sacerdotes, mestres e rezadores nordestinos.
Quinhentos anos é muito tempo e no astral cristalizou-se toda uma plêiade de espíritos fortes, aguerridos e capazes de proezas dignas dos grandes heróis nacionais.
Só que, nas linhas da Umbanda, se manifestam os heróis desconhecidos, englobados em arquétipos fortes porque são espíritos que, quando na Terra e encarnados, dedicaram suas vidas no anônimo trabalho de consolar e amparar os aflitos e os desesperançados.
A linha dos Baianos é essa linha: a dos heróis anônimos que sustentaram o culto aos Orixás e os semearam primeiro em solo baiano, e posteriormente no resto do Brasil e, com a Umbanda organizada, os levarão ao mundo.
Com antepassados tão heroicos, essa é a razão de a Umbanda não precisar da Bíblia ou de nenhum outro livro Santo.
Afinal, na Bahia de Todos os Santos, filhos de santo todos somos!
Saravá a Bahia!